A HERANÇA DO AZULEJO

Enquanto a norte de Portugal se pintava sobre tela, nós pintávamos sobre azulejos.

O AZULEJO PORTUGUÊS

Embora muitos pensem que a palavra azulejo deriva de azul, a palavra é de origem Árabe e provém de az-zulayj que significa, basicamente, “pedra polida”. Aplicados antes do século XVI, o Rei D. Manuel I ficou impressionado com o potencial decorativo dos azulejos hispano-mouriscos e encomendou às azulejarias grandes quantidades para o seu Palácio Real, em Sintra. Os azulejos foram, de seguida, utilizados para decorar paredes e abóbadas de igrejas, mosteiros e casas senhoriais.

​Em 1640, Portugal revoltou-se contra os espanhóis, dando início a uma guerra que se prolongou até 1668, durante a qual foi introduzido um novo estilo, caracterizado por figuras contornadas por uma tinta bastante escura, à base de manganês, à semelhança de uma banda desenhada. Quando a guerra terminou, os clientes ricos consideraram que faltava sofisticação à produção nacional e começaram a encomendar à Holanda painéis pintados por profissionais mais experientes, os quais eram decorados em azul e branco, ao estilo da porcelana Ming muito em voga na época. De modo a tornarem-se competitivos, os fabricantes de azulejos portugueses recorreram a pintores de nomeada para decorarem os seus painéis produzidos localmente, igualmente em azul sobre um fundo branco semitransparente. Este passo deu início ao denominado Ciclo dos Mestres, o qual nos legou magníficos e valiosos painéis de azulejos produzidos localmente. O período prolongou-se até por volta de 1725.

Em 1755, um violento terramoto arrasou uma parte considerável de Lisboa. O centro da cidade foi planeado segundo conceitos urbanos modernos e as paredes e cozinhas dos novos edifícios, com vários andares, eram muitas vezes revestidas por azulejos com padrões simples, rematados por uma moldura linear (o denominado estilo pombalino). No final do século XVIII, surgiram novos desenhos e padrões (o denominado estilo Dona Maria, em honra da rainha Dona Maria I de Portugal).

Na segunda metade do século XIX, os azulejos conheceram um renascimento como revestimento de fachadas, conveniente e praticamente isento de manutenção, primeiro ao estilo pombalino e, depois, com os novos e coloridos desenhos que permaneceram até meados do século XX, após o advento da produção industrial moderna.

A COR AZUL – COBALTO

O azul-cobalto é um pigmento que contém como ingrediente activo o óxido de cobalto, o qual quando aplicado, nas devidas proporções, sobre vidro cru e de seguida cozido origina uma cor azul acentuada denominada azul-cobalto.

O cobalto é um metal que existe em quantidades limitadas na crosta terrestre. Não se encontra na sua forma elementar pura… Apenas a caracterização química permite conhecer a verdadeira origem de cada tipo de pigmento contendo cobalto.

Antigamente, as principais fontes de cobalto conhecidas situavam-se em: Qamsar (no actual Irão), na Europa, na Saxónia e Boémia (presentemente situadas na Alemanha e República Checa) e na China e, actualmente, em Samatra, Espanha, Noruega e Marrocos.

Ao estudarmos a cerâmica europeia dos séculos XVI a XIX apercebemo-nos da prevalência dos tons azuis, os quais dominam as decorações da faiança e da porcelana. Para se poder decorar a azul foi indispensável a descoberta de pigmentos adequados e a respectiva disponibilidade local ou através de rotas comerciais. Historicamente, a exploração mineira de cobalto iniciou-se na Europa em 1500, em estreita ligação com a exploração de prata e bismuto na Hercínia, na Alta Saxónia-Boémia. Nessa altura, proliferou a utilização de cobalto na cerâmica e no fabrico de vidro na Europa central e setentrional. Em Espanha, Portugal e Itália a cor surgiu cerca de um século antes, quando foi importada de países longínquos por via marítima através do Mediterrâneo Ocidental. A cor parecia provir e ser comercializada entre áreas onde existiam minérios de cobalto.